Análise: Saída da Ford do Brasil é um sinal. Mas é sinal de quê?

O anúncio da saída da montadora Norte-Americana do Brasil foi amplamente discutida depois da publicação à imprensa na última segunda feira (11), diversos fatores foram levantados para a decisão, o simbolismo de encerrar 102 anos de historia no Brasil pode estar mais ligado a estratégia global do que dificuldade de fazer negócio.

Na última segunda-feira a subsidiaria da Ford no Brasil anunciou a descontinuação da produção automobilística no Brasil. O comunicado que começa com essa declaração:

A Ford Motor Company anunciou hoje que atenderá os consumidores na América do Sul com um portfólio empolgante de veículos conectados, e cada vez mais eletrificados, incluindo SUVs, picapes e veículos comerciais, provenientes da Argentina, Uruguai e outros mercados, ao mesmo tempo em que a Ford Brasil encerra as operações de manufatura em 2021.

causou imenso alvoroço político por não deixar claro os fatores que pesaram na decisão. Governadores da Bahia e São Paulo já se pronunciaram dizendo que vão articular medidas para garantir direitos e auxílios aos trabalhadores, pois serão fechadas as três fábricas brasileiras de Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE), onde é fabricado o Troller. As operações de manufatura na América do Sul continuarão na Argentina e no Uruguai, de onde virão os carros importados para o mercado brasileiro.

Histórico

É importante lembrar, antes de recair na burocracia e no custo alto de fazer negócios no Brasil que a Ford é uma das montadoras internacionais que mais vinha sofrendo com resultados ruins de vendas em todo o mundo. No ano passado amargou a 5º posição no ranking nacional de vendas de carro ficando atrás de General Motors (1º), Volkswagen (2º), Fiat (3º) e Hyundai (4º). Apesar de pegar o Governo Federal e Estadual de surpresa a montadora americana havia anunciado que deixaria de produzir carros de passeio em sua terra natal já em 2018. Desde então, a produção é voltada inteiramente a SUVs e carros elétricos. A decisão pela estratégia está ligada a pesquisas de mercado que apontaram uma tendência crescente na busca por picapes nos Estados Unidos. A Ford acredita que, nos próximos anos, a busca por utilitários crescerá até 40%.

Outro fator determinante a eletrificação pesa na decisão, há uma óbvia relação entre a decisão da Ford e a tendência de descarbonização do setor automotivo, manifestada na eletrificação do transporte individual de passageiros e no surgimento do mercado de compartilhamento de automóveis.

Novos tempos para o Setor

A Ford esteve no fim da fila na produção de carros elétricos, enquanto outras montadoras já se movimentavam, divulgando seus primeiros protótipos elétricos apenas no final de 2019, durante o Salão do Automóvel de Frankfurt, na Alemanha. 

Apesar do atraso, a montadora espera que, até 2022, os elétricos representem mais da metade das vendas na Europa. Hoje, a montadora está no páreo das concorrentes no que diz respeito a veículos eletrificados. Com o lançamento de modelos como o esportivo Mustang e a picape F-150, a Ford pretende se consolidar como uma das líderes do setor – pelo menos nos Estados Unidos.

Outra tendencia além da eletrificação dos veículos é o compartilhamento de automóveis, também entre as montadoras. No caso da Volkswagen, o serviço de compartilhamento de carros começou em território brasileiro em novembro do ano passado, quando a empresa anunciou um serviço que permite o aluguel de dois modelos de SUV por assinatura. Toyota, CAOA, Fiat e Jeep também já têm serviços do gênero, enquanto a Ford não anunciou nenhum projeto voltado ao setor no Brasil nos últimos tempos.

Soma-se a isso a política incipiente do Brasil para adoção de carros elétricos em massa e e temos um cenário de pouco futuro para a Ford no mercado da manufatura. 

Instabilidade e custo para produzir no Brasil

Agora sim, como não é um fator apenas que explica tudo, podemos atribuir boa parcela da motivação da saída de empresas do Brasil nos últimos anos por conta da alta taxação, burocracia tarifaria e custos altos para produzir manufatura no Brasil. Alguns economistas desenvolvimentistas defendem desde de 2016 que há sinais de um processo de desindustrialização no país, finado Wilson Cano, professor do Instituto de Economia da Unicamp defendia que existia uma desindustrialização em marcha face à ausência de políticas industriais e de desenvolvimento e da conjugação de juros elevados, falta de investimento, câmbio sobrevalorizado e exagerada abertura comercial. 

Economistas mais liberais na atualidade defendem que o excesso de burocracia e o custo Brasil, bem como a intervenção excessiva do Estado na Economia e a instabilidade política podem ser causas promotoras de falta de competitividade na produção de manufaturas como colocou Emerson Marçal, professor da FGV EESP (Escola de Economia da São Paulo da Fundação Getulio Vargas) ao UOL. Países como Argentina e Uruguai conseguem proporcionar mais competitividade e os acordos comerciais do MERCOSUL favorecem a logística e a venda no Brasil. 

O que significa para nossa Região? 

Certamente o espaço ocupado pelas vendas da Ford serão abocanhados pelas outras montadoras, alguns clientes já pediram inclusive seu dinheiro de volta nas compras realizadas recentemente. 

Ou seja, o consumo não vai diminuir, e apesar da montadora para de produzir no Brasil, ainda intende que é um mercado consumidor importante para a marca. A Região Metropolitana de Campinas exporta produtos de maior parte industrial, sendo do segmento automobilístico, como automóveis, reboques e carrocerias, do setor químico e farmacêutico e do setor de máquinas e equipamentos para a indústria. E tem no setor automobilístico grande peso na arrecadação das cidades, grandes empresas estão na região: Bosch, Samsung, Goodyear, Pirelli, Mercedes-Benz, Motorola, 3M, Honda, Valisere, Magnetti Marelli, Dell, HP, IBM, Eaton, Unilever, Tetra Pak, Toyota, Syngenta, General Eletric, Braskem, Rhodia, Bayer, Iveco, Wolkswagen, Scania, entre outras. 

Por isso é importante acompanhar as mudanças e as dinâmicas do setor para saber como podem afetar a vida e a economia regional. Como salientado, é preciso termo um bom ambiente de negócios para garantir externalidades positivas na instalação dessas empresas. Porém, também é preciso ter em conta que o crescimento brasileiro é liderado, ainda, muito pelo consumo e não pelo investimento. Por isso, ao escolher priorizar setores nos distritos industriais das cidades é importante considerar o futuro desses negócios. 

Confira anúncio completo:

A Ford Motor Company anunciou hoje que atenderá os consumidores na América do Sul com um portfólio empolgante de veículos conectados, e cada vez mais eletrificados, incluindo SUVs, picapes e veículos comerciais, provenientes da Argentina, Uruguai e outros mercados, ao mesmo tempo em que a Ford Brasil encerra as operações de manufatura em 2021.

A Ford atenderá a região com seu portfólio global de produtos, incluindo alguns dos veículos mais conhecidos da marca como a nova picape Ranger produzida na Argentina, a nova Transit, o Bronco, o Mustang Mach 1, e planeja acelerar o lançamento de diversos novos modelos conectados e eletrificados. A Ford mantém assistência total ao consumidor com operações de vendas, serviços, peças de reposição e garantia para seus clientes no Brasil e na América do Sul. A empresa também manterá o Centro de Desenvolvimento de Produto, na Bahia, o Campo de Provas, em Tatuí (SP), e sua sede regional em São Paulo. 

“A Ford está presente há mais de um século na América do Sul e no Brasil e sabemos que essas são ações muito difíceis, mas necessárias, para a criação de um negócio saudável e sustentável”, disse Jim Farley, presidente e CEO da Ford. “Estamos mudando para um modelo de negócios ágil e enxuto ao encerrar a produção no Brasil, atendendo nossos consumidores com alguns dos produtos mais empolgantes do nosso portfólio global. Vamos também acelerar a disponibilidade dos benefícios trazidos pela conectividade, eletrificação e tecnologias autônomas suprindo, de forma eficaz, a necessidade de veículos ambientalmente mais eficientes e seguros no futuro.”

A empresa irá trabalhar imediatamente em estreita colaboração com os sindicatos e outros parceiros no desenvolvimento de um plano justo e equilibrado para minimizar os impactos do encerramento da produção.

“Nosso dedicado time da América do Sul fez progressos significativos na transformação das nossas operações, incluindo a descontinuidade de produtos não lucrativos e a saída do segmento de caminhões”, disse Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul e Grupo de Mercados Internacionais. “Além de reduzir custos em todos os aspectos do negócio, lançamos, na região, a Ranger Storm, o Territory e o Escape, e introduzimos serviços inovadores para nossos clientes. Esses esforços melhoraram os resultados nos últimos quatro trimestres, entretanto a continuidade do ambiente econômico desfavorável e a pressão adicional causada pela pandemia deixaram claro que era necessário muito mais para criar um futuro sustentável e lucrativo.”

A Ford está constantemente avaliando seus negócios em todo o mundo, incluindo a América do Sul, fazendo escolhas e alocando capital de forma a avançar em seu plano de atingir uma margem corporativa EBIT de 8% e gerando um forte e sustentável fluxo de caixa. O plano da Ford prevê o desenvolvimento e a oferta de veículos conectados de alto valor agregado e qualidade – cada vez mais eletrificados –, com serviços acessíveis a uma gama mais ampla de consumidores.

A empresa se move rapidamente, com o objetivo de:

  • Transformar seu negócio automotivo – competindo de maneira desafiadora, simplificando e modernizando todos os aspectos da empresa; e
  • Crescer alavancando os pontos fortes já existentes, desafiando o negócio automotivo convencional e realizando parcerias para expandir eficiência e conhecimento.

“Trabalharemos intensamente com os sindicatos, nossos funcionários e outros parceiros para desenvolver medidas que ajudem a enfrentar o difícil impacto desse anúncio”, continuou Watters. “Quero enfatizar que estamos comprometidos com a região para o longo prazo e continuaremos a oferecer aos nossos clientes ampla assistência e cobertura de vendas, serviços e garantia. Isso se tornará evidente ao trazermos para o mercado uma linha empolgante e robusta de SUVs, picapes e veículos comerciais conectados e eletrificados, de dentro e fora da região.”

Watters acrescentou que, além da confirmação da produção da nova geração da Ranger, da chegada do Bronco, do Mustang Mach 1 e da Transit, a Ford também planeja anunciar outros modelos totalmente novos, incluindo um veículo híbrido plug-in. “Isso se alia à expansão de serviços conectados e de novas tecnologias autônomas e de eletrificação nos mercados da América do Sul.”

A produção será encerrada imediatamente em Camaçari e Taubaté, mantendo-se apenas a fabricação de peças por alguns meses para garantir disponibilidade dos estoques de pós-venda. A fábrica da Troller em Horizonte continuará operando até o quarto trimestre de 2021. Como resultado, a Ford encerrará as vendas do EcoSport, Ka e T4 assim que terminarem os estoques. As operações de manufatura na Argentina e no Uruguai e as organizações de vendas em outros mercados da América do Sul não serão impactadas.

A Ford continuará facilitando alternativas possíveis e razoáveis para partes interessadas adquirirem as instalações produtivas disponíveis.

Em decorrência desse anúncio, a Ford prevê um impacto de aproximadamente US$ 4,1 bilhões em despesas não recorrentes, incluindo cerca de US$ 2,5 bilhões em 2020 e US$ 1,6 bilhão em 2021. Aproximadamente US$ 1,6 bilhão será relacionado ao impacto contábil atribuído à baixa de créditos fiscais, depreciação acelerada e amortização de ativos fixos. Os valores remanescentes de aproximadamente US$ 2,5 bilhões impactarão diretamente o caixa e estão, em sua maioria, relacionados a compensações, rescisões, acordos e outros pagamentos.

Texto de Thiago Tonus, economista formado pelo IE – Unicamp e estudante de Administração Pública – FCA Unicamp 

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