*Via Diário Catarinense

As ceias de Natal e Ano-Novo são regadas à tradição e a crenças. Cada alimento colocado à mesa tem uma simbologia – seguida à risca pela maior parte das famílias. Os pratos típicos das celebrações têm origem na produção agropecuária, com procedência muitas vezes pouco conhecida entre os consumidores. Por trás das comidas das festas de fim de ano existem mercados distintos que movimentam bilhões no Brasil e lá fora. Para entrar no clima, sem esquecer do agronegócio, saiba de onde vêm e como são produzidos os alimentos que tornam as comemorações desta época especiais. 

A escolha das aves

Principal estrela do jantar de Natal, a carne de frango tem papel de liderança no agronegócio brasileiro – maior exportador mundial do produto. Embora se pareçam, as aves não têm a mesma origem. São duas espécies de animais, o peru e o frango. Mais difícil de criar, o peru exige condições específicas de temperatura e é abatido apenas por duas empresas no país – BRF e JBS. O animal responde por cerca de 30% do faturamento das aves consumidas no final do ano no Estado, segundo a Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav).

– O peru tem custo de produção mais elevado, por isso acaba sendo um pouco mais caro – explica José Eduardo dos Santos, diretor-executivo da Asgav.

Todos os outros produtos, com marcas comerciais chester, bruster, fiesta, são da mesma espécie do frango comum. A linhagem dos frangões tem maior quantidade de peito, resultado de seleção genética – que nada tem a ver com hormônios ou transgenia. 

– O maior rendimento de carne é alcançando a partir do cruzamento de animais com características específicas – resume Santos, estimando produção de 90 mil toneladas de aves natalinas no Rio Grande do Sul, terceiro maior produtor nacional de carne de frango. 

Charme trazido de longe

As frutas secas, responsáveis pelo charme à mesa, são trazidas de longe para o Brasil. As uvas passas, que colorem o arroz à grega, por exemplo, são importadas de países como Irã, África do Sul e Chile. A maioria é híbrida sem semente, variedade pouco comum por aqui. Já o damasco seco vem em grande volume da Turquia, com terroir favorável para a doçura da fruta:

– Os países mediterrâneos são grandes fornecedores de frutas secas, que exigem calor e pouca água – destaca Carlos Cezar Schneider, diretor de logística e importação da Uniagro, empresa atacadista de alimentos.

As tâmaras vêm de Marrocos, Tunísia e Espanha, enquanto as amêndoas e nozes são trazidas do Chile, da Argentina e dos Estados Unidos. E engana-se quem pensa que o preço salgado desses produtos tem a ver apenas com a origem.

As castanhas do Pará e de caju, produzidas no Norte e no Nordeste, costumam ser mais caras do que os importados. 

– O Brasil é um grande exportador de castanhas, o que acaba valorizando o produto – explica Schneider.

Enquanto isso, o Rio Grande do Sul começa a despontar na produção de noz pecã, com 4 mil hectares cultivados. 

Farofa tradicional

No passado associada à produção artesanal, a matéria-prima da tradicional farofa é fabricada hoje por grandes indústrias – a maioria instalada no Paraná e em São Paulo. A farinha de mandioca é elaborada a partir do processamento da raiz, resultando em espessuras finas e grossas – além de crua, torrada ou temperada. 

– O grande mercado ainda é o de farinha in natura – diz Alencar Rugeri, assistente técnico estadual da Emater.

No Rio Grande do Sul, a produção de mandioca, também chamada de aipim, está concentrada no Vale do Rio Pardo – com destaque para o município de Venâncio Aires. 

Na década de 1970, lembra Rugeri, o Estado produzia a farinha de maneira artesanal, prática que foi substituída mais tarde por grandes indústrias de processamento – até por exigência de novas regras de legislação. Hoje, o Paraná é um dos maiores produtores nacionais.

O acompanhante fiel

Embora mais discreto na mesa, o arroz tem presença garantida na ceia natalina – nas versões branco ou à grega. O cereal, que costuma acompanhar outros pratos, tem 71% da produção nacional concentrada no Rio Grande do Sul. O Estado reúne características favoráveis de solo e clima, além da expertise de agricultores na produção da variedade mais consumida no país: tipo longo fino, o popular agulhinha. 

– A qualidade do produto brasileiro é reconhecida mundialmente. Além de ser livre de glúten, o cereal é fonte importante de energia – destaca Tiago Barata, diretor comercial do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

O resultado é fruto da tecnologia aplicada nas lavouras 100% irrigadas, que alcançam produtividade média superior a 8 mil quilos por hectare. O custo do cultivo do cereal é o dobro da soja, por conta dos gastos com energia, preparo do solo e depreciação das máquinas e equipamentos – usados em terrenos alagados. Na última safra, o Brasil produziu 12,3 milhões de toneladas de arroz – para o consumo anual de 12 milhões de toneladas. Enquanto o país importou cerca de 1 milhão de toneladas do Paraguai, foram exportadas 800 mil toneladas.

Harmonia sagrada

Bebida sagrada para os cristãos, o vinho tinto harmoniza com o banquete de Natal nos tipos finos ou de mesa. Além disso, o produto é presente quase sempre certeiro nos amigos secretos em família.

– A bebida é símbolo de confraternização. Tem pessoas que não tomam vinho durante o ano, mas consomem no Natal – exemplifica o  diretor de Relações Institucionais do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Paviani.

As variedades de uvas mais valorizadas são merlot, carbernet sauvignon, cabernet franc e tannat – todas cultivadas no RS, que concentra 90% da produção brasileira. Entre os vinhos finos e de mesa consumidos ao longo do ano, 65% são nacionais e 35% importados. Considerando apenas as bebidas finas, a proporção é de 80% de importados e 20% de locais.

– A concorrência nos vinhos é muito maior do que nos espumantes. Há oferta de dezenas de países produtores – compara Paviani.

 

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